Revista Virtual Astro-Lábio de Arte & Literaturas 2ª edição_
Casa e suas adjacências – jardim, muro, mobiliário, caracol, tapete, cozinha, etc.

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DIÁRIO POLIFÔNICO
CASA EM OBRAS

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7 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP

Pontogor Pontogor



para bcc: mim


SP26032012 - 14H45

Em outra passarela...
Músicos, cerveja, carão...

Com uma voz calma e cheia de dúvida.
- Um autógrafo? Eu não sei, é que falaram que hoje poderia ser complicado.
Ele olha para uma das mulheres que o acompanhavam e fala suave e distraidamente:
- Autógrafo?
Ela responde que pode ser melhor quando ele estiver sentado na sala mais reservada.

Olhos completamente distantes e pequenos.
Os traços no papel pareciam de mãos trêmulas. Hesitante mão que fizera aqueles traços em pinturinhas penduradas nas paredes.

Alguém fala e ela ouve entre ouvidos:
- Ele é puro e não tem maldade. Está muito além do mundo, está muito além de qualquer coisa. Fora do mundo.

Ela falou.
- Que sacanagem era isso. O cara tava na galeria justamente pra se esforçar pra estar no mundo, pra estar dentro.

Me desconecto completamente daquilo tudo e bebo. Vamos a um restaurante chinês com música ao vivo. Um grupo sertanejo toca no meio do salão enquanto as pessoas gritam iiiiiiIIIIIIIIRAAAAAAAAAAAaaaa
!
O cara do violão tinha sapatos de couro vermelhos, com bico fino. Sapato bolado.

- Vamos dançar?
Esbarramos e quase caímos diversas vezes sobre as pessoas.
- Não sei se te levo ou você me leva.
- Me leva você.
Eu não conseguia nem levar minha cabeça para uma real compreensão daquilo tudo.

A ressaca é amenizada quando meus cadernos, livros, guitarra e câmera não estão dormindo na minha cama.

No dia seguinte um almoço, uma exposição, uma pista sendo re-aberta.

MADAME SATà 

Luzes

Desço as escadas e ao tocar o piso plano vejo as pilastras e as pessoas que se movimentam passando de um lado ao outro. Deste lado algo como um corredor leva a uma escada do lado oposto a que desci. Do outro lado dos pilares um ambiente pouco maior.

A fumaça densa toma todo o lugar, preenche os espaços entre pessoas. Tudo que existe ali são pessoas, fumaça, luz e som. E não vejo quase nada. O cheio lembra minha adolescência. E esbarro nas pessoas para conseguir andar.

Um único ponto de luz que pulsa fortemente.
Aquela sensação já experimentada.
Muito fresca em minha memória
Dessa vez giraram o botão até o dez.

Pequenos cortes na fluidez dos movimentos.
Vejo imagens estáticas que reverberam em minha retina.
E são substituídas por novos stills

Tudo é escuro mesmo quando iluminado
As paredes, o chão, o teto
As pessoas estão de preto
Couro negro, cabelos pretos

Os movimentos congelados
Os olhares, os gestos.

Estou chapado (mas não tomei nada). Não consigo me adaptar ao ambiente e movimento meu corpo com os olhos semicerrados. Movimento meu corpo para de alguma forma inserir-me ali, falando para mim mesmo que agora as coisas são dessa maneira. Aquilo é a realidade. Stills, calor, esbarrões. Meus pés vibram involuntariamente e aproveito esse estímulo para movimentar o resto do corpo e olho na cara das pessoas que parecem concordar com tudo da mesma forma que eu estou me esforçando para tal.
Caminho desnorteado até um espaço desconhecido, bato em uma parede abaixo de onde o ponto de luz está colocado. Dou meia volta e não consigo reconhecer pessoas. Formas em constante reorganização. Pontos claros me permitem ver um braço, uma cabeça. Os cabelos espalhandos pelo ar sem movimento. Massas estáticas.

Graves, gritos, noise, distorção. A bateria eletrônica me indica a velocidade de minhas passadas. Não paro de mover meus tornozelos com isso meus pés respondem a outros estímulos sonoros, se somando. Torções verticais das minhas pernas fazem meu corpo gira mesmo que minha cintura contrarie as posições dos ombros.
Dos quadris para cima os movimentos normalmente são bem diferentes, se relacionando a outros instrumentos ou a voz.
Uma quebra brusca na música, uma pausa. E todo o corpo se freando suavemente, sem querer parar. O giro dos quadris vai se alongando bem devagar esperando uma nova indicação saída das grandes caixas de som. E muitas vezes é preciso uma contração dolorosa para dar conta do que bate nos meus tímpanos. Todo meu abdômen se enrigisse. O pé, para passada ou outra, se arrasta gastando o lado de cima do tênis no chão. A constante readaptação devido ao contato com outros corpos que se relacionam com aquilo tudo de forma independente. Em uma onda completamente própria. Minhas costas tocam uma mulher magra que involuntariamente desenha uma linha diagonal em meu corpo usando seu ombro. Isso me empurra suavemente para um giro em sentido horário me re-localizando. Olho para ela que também se viu obrigada a variar seus movimentos por conta da colisão. Em algum momento durante a leve vibração de cordas de guitarra dois movimentos horizontais das cabeças fazem com que, em um piscar da luz estroboscópica, eu veja uma fotografia de seu rosto completamente de frente para o meu. Olhos lindos com contorno grosso e negro. Os movimentos, como a música seguem e no segundo seguinte estamos em total escuridão e no segundo seguinte já estamos de volta aos nossos mundos de distrações individuais.

- Ela não para de olhar pra você.
- Pode ser pra você. Acho que não importa muito..

Voltando pra casa seis da manhã encontramos Aline que não sabia quanto custava o delicioso Uzi que comemos horas antes. Ela está trabalhando naquele restaurante a quinze dias, está a três meses em São Paulo.

- Mas está voltando do trabalho agora?
- Na verdade fui em casa dormir três horas e estou indo para o outro emprego, na padaria. Depois volto para o restaurante.
- E faz isso todos os dias?
- Tenho uma folga na segunda, na padaria. Folgo teça no restaurante.
- Porra, você dorme três horas por dia?
- Sim, pois tenho que ir pra igreja ainda.
...
- Vocês podem seguir por aqui que chegarão no metrô.
- beijos.



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6 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP

SP22032012 - 00H26

Quando ele tem um caderno bem feito e uma caneta boa, sente mais vontade de fazer alguma coisa, mesmo que seja rabiscar. Um pedaço de madeira velha muitas vezes é melhor caderno do que uma tela de linho.

***

Todas as nossas ideias se perderam em sonhos

Naquela mesma tarde
O chão repleto de guimbas de cigarro

Todas aquelas coisas espalhadas em todos aqueles cômodos
Tinta pelo chão, papéis, caixas, videocassetes, copos quebrados...

Uma coisa não é o que você diz que é
É muito mais
É uma série no mais amplo sentido da palavra

Uma cadeira não é uma cadeira
É uma estrutura inconcebivelmente complexa
Atomicamente
Eletronicamente, quimicamente, etc

Por outro lado
Pensá-la como uma simples cadeira
é o que se chamou de "identificação"
E a totalidade dessas identificações
que produzem nonsense
e tirania

***

Mas as coisas se confundem com os espaços ou na pior das hipóteses se relacionam com eles. Eles estão lá como grandes caixas cheias de quinquilharias que guardamos ao longo da vida. Como caixas de brinquedo ou porcarias encontradas em um passeio na praia. Acabamos por jogar fora essas merdas. Um maluco ou outro guarda caixas da vida.
Ele acende um baseado. Resolveu arrumar as coisas chapado.
"Porque assim, só o que tiver importância a ponto de eu lembrar é que não merece ser jogado no lixo".
E o que sobra?

A maior parte do que tenho visto é uma merda total e absoluta. Não consigo entender o que as pessoas estão fazendo. O problema é TUDO. A mentalidade, a intenção, as referências, os materiais, a vontade, os espaços, ou o até o que entendo disso tudo.

O caso é que nenhum desses "espaços" é o suficiente. A maioria das pessoas está fingindo fazer alguma coisa, está fingindo tomar atitudes, fingindo se posicionar, fingindo viver.
Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental e isso serve para curadores, críticos, diretores, dançarinos e para mim. Não serve para galeristas, pois obviamente eles tem (assumidamente) um outro papel nessa história da chapeuzinho vermelho.

Vamos!
Vamos levar nossas bandeiras
Vamos formar um grande grupo
Vamos invadir os espaços
Vamos ganhar dinheiro

É isso? Simples assim? E como é se não assim?
Quando fico autocrítico ou quando fico autocrítico por ser autocrítico.
Quando pesa minha consciência por fazer o que não concordo e quando pesa minha consciência por não fazer, pois não concordo e depois ficar achando que era romantismo ou sonho juvenil.
Que meus pais não têm dinheiro e que nem foi por que estavam lutando contra alguma coisa e que gostaria de ter dinheiro mesmo lutando.

***

Olho pela janela e vejo o mesmo prédio de ontem, anteontem e de sexta-feira passada. Não tem ninguém lá. Compulsivamente fico olhando para esse prédio. Esperando alguma coisa acontecer, procurando uma resposta. Ele está lá, na minha frente. Abandonado, silencioso.
Se cala e ignora o barulho dos carros e ônibus que atravessam as ruas.
De uma das janelas saem paletas de uma persiana que se balançam com o vento.

Minha mente é um enorme vazio, ou pequeno. Não importa.

If I saw you now
Could I look in your eyes

Eu estava na varanda pensando nela e um helicóptero foi se aproximando de um enorme prédio do outro lado da rua. Numa estranha mudança do vento a aeronave, que mais parecia um brinquedo, girou e bateu na lateral do edifício. Suas hélices voaram pelos ares e um enorme buraco exibia todo o resto de quando escritórios funcionavam ali.

O sol já deixava o céu azul vivo e ele acordou chorando de um sonho que não se lembrava. Chorando alto e soluçando. Voltou a dormir e foi surpreendido pelos raios de sol esquentando seu rosto. Teve que se levantar para fechar a pesada persiana.
É muito cedo, mas não temos como esquentar a água para o café. A insatisfação de uma caneta sem tinta ou um caderno sem folhas em branco.

Um armário vermelho levemente inclinado para frente com a porta aberta em noventa graus. A porta é pesada e faria com que ele tomba-se, mas a mesma porta que o puxa para frente serve de apoio (muleta) para que não caia. Ele colocou a calça jeans pendurada na porta. Pendendo e quase tocando o chão. Como se estivesse em pé. Nada além de poeira e restos de temperos nas prateleiras do armário.

Quase nenhuma resposta... Algumas muito boas e outras só deixam tudo como está.
Os dias passam.





TRANSAR







5 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP

SP14032012 - 23H23

- Ok vamos embora. Está tarde.
- Sim, vamos.

Subimos a rua e nos separamos. Uma para a direita, dois seguiram em frente e dois ficaram do mesmo lado da calçada.

- Por que eles seguiram? Você não tem que ir com eles?
- Não. Eles foram na frente porque quiseram. Sei lá? Eu não tenho que ir agora. Vamos que espero seu ônibus.

O ônibus passou, ela não entrou e eu não questionei.

- Meu ônibus passou.
- Eu vi.
- Será que ainda conseguimos tomar uma cerveja?
- Vamos! Vamos tomar uma cerveja.
- Avisamos a eles?
- Tudo bem, vamos atravessar a rua e avisar que irei depois.

O bar estava fechando e tínhamos que voltar para o ponto antes das duas. Tomamos uma cerveja enquanto falávamos da clássica briga entre “razão e a fé” ou seria consciência e falta de noção, ou ainda pensar ou não pensar.

- Tá certo, agora não temos o que fazer. É terminar esse copo e voltar para o ponto.

Dessa vez ela não poderia perder o ônibus. Me emprestou uma jaqueta verde oliva, misto de Che Guevara com Paquita, que coube perfeitamente e se foi. Eu atravessei a rua e sentei. Olhei o relógio que marcava 02:00 e pensei que se nenhum transporte passasse até duas e quinze eu iria a pé. A decisão foi tão simples que cheguei a ficar ansioso para sair logo daquele lugar.

02:15
Avenida Paulista x Rua Augusta.

Me levanto naturalmente e sai andando. Penso que seria lógico seguir mais ou menos pelo caminho que acreditava saber que o ônibus fazia. O caso é que eu não me lembrava que caminho era só tinha pegado esse ônibus uma vez, além do mais poderia dar mais voltas que o necessário (insano pensamento, já que não tinha a menor ideia de porr nenhuma). A única coisa que eu sabia é que a casa estava para o sul. Eu fiz parte desse caminho de carro uma única vez e nos perdemos pra caralho até chegar.
Eu fui andando e virei à direita quando me deu na telha, Rua Pamplona. Sigo em direção aos Jardins. Descida tranquila e ninguém pelas ruas, temperatura agradável com a jaqueta salvando minha vida. Começo a sentir uma estranha euforia que se estenderá por todo o percurso. Sei que tenho que ir reto até o Parque Ibirapuera, mas não tenho certeza se essa rua vai até ele. Continuo andando e andando.

02:40
O telefone toca.

- Alô.
- Como está?
- Estou bem, chegando perto do Parque Ibirapuera.
- Está indo a pé?
- Sim.
...
- Não tem muito como errar depois que chegar na República do Líbano.
- Tudo bem. Vai dar tudo certo.

Chegando na rua Estados Unidos eu cometo meu primeiro deslize. Tive a sensação de estar virando muito para oeste e pensei que poderia pegar essa rua e andar um pouco para esquerda. No fundo no fundo não estava completamente errado, mas a velocidade da minha caminhada me fez passar um pouco e quando me dei conta estava indo em direção ao lado leste do parque. Começo então a voltar contornando-o para a rua que segue pelo lado certo. Chego no meu segundo ponto de referência a Avenida República do Líbano. Uma estranha névoa, o vazio, as árvores do Parque e o silêncio cortado eventualmente por carros espaçados. A névoa e as árvores davam um tom fabuloso, minha mente solta criando qualquer tipo de imagens para significar aquilo. A jaqueta fez uma diferença muito grande e me sinto bem com ela cobrindo minha fina camisa azul de botões. Fico com muita vontade de bater fotos dessa paisagem, mas meu filme tinha terminado no bar. Não conseguimos bater uma foto da vitrine de salgados bizarros. O cara do bar era gente boa. O Vital. Ele fez um fígado fresco acebolado bom pra caralho e antes disso falou suavemente com Luísa:
- Com licença, mas a senhorita tem mais de dezoito anos, não é?
A mulher dele abre o bar e ele fecha pontualmente meia-noite. Com a simpática saideira  já mandando a galera vazar.

Percebo que dali em diante eu não faço a mais vaga ideia de como chegar. Essa primeira parte era bem óbvia, mas agora eu não tinha certeza de nada. Me sobraram dois cigarros e um eu acendi para fumar enquanto via aquela neblina incrível. Ele já tinha acabado quando tomei a decisão de seguir reto a continuar a curva do Ibirapuera. Nesse momento estava na altura de Moema e entrei na rua que mais parecia a certa. Eu poderia ter economizado uns quinze minutos de tivesse seguido reto um pouco mais.

Essa estranha rua me levou lentamente até a Avenida Santo Amaro e já me sentia em casa, pois a partir daquele ponto não existia mais a possibilidade de me perder. Foi uma longa caminhada até chegar em casa. Vendo todo aquele lixo e paradas de ônibus de concreto. Uma pequena ponte e por cima dela eu via a Avenida dos Bandeirantes toda tranquila com seu fluxo de carros da madrugada. A mureta do pequeno viaduto era bem baixa e senti uma leve vertigem. Esse momento me lembrou do meu encontro com Ícaro no dia anterior, após receber um e-mail sobre Churras no Minhocão.

Achei massa nego fazer um churrasco na rua e pilhei total. Acordei tarde e nos falamos por telefone. Peguei o metrô e fui até a estação Marechal Deodoro. Saio na rua e vejo o enorme viaduto (que me lembrou a Perimetral) com a idéia clara de seguir por baixo dele até o ponto marcado no convite. Nesse momento começa a chover como se ligassem um interruptor. Porra, pelo menos eles estão em baixo do Minhocão. Vou andando e percebo que a pista de subida está fechada e por conta da chuva um bando de pessoas desce correndo para se proteger. Aquilo era inesperado, mas fez sentido já que o estranho desenho do convite parecia indicar por cima e não por baixo.
Aquela chuva escrota me faz entrar em uma padaria para comer uma fatia de pizza e tentar falar com Ícaro, que chega completamente encharcado logo depois de eu paga a conta. Não tinha muito que fazer. Subi com ele e caminhamos até o churrasco debaixo de uma chuva que não parecia querer parar. As pessoas estavam lá, uns poucos gatos pingando de molhados e certo clima de forçar a barra. Parecia melhor continuar um rolé naquele monstro de concreto que por pouco não invade alguns apartamentos.
Cena completamente louca.

Comento:
- Caralho. É muito absurdo essa porra ficar fechada para pedestres... Idéia incrível.
- É como o Aterro do Flamengo no Rio.

A chuva não pára e não sabemos exatamente onde vai dar nosso rolê. Estamos encharcados, calças jeans pesadas e camisas grudadas. Meu cigarro parece ainda servir para alguma coisa, mas meu isqueiro não acende. Achamos uma saída e caminhamos até o Copan onde tomamos um café e fingimos nos secar com uma toalha que a garçonete emprestou.

- Como estão molhados... Muito molhados...

Na verdade ficamos molhados até ir pra casa de noite. O cigarro resistiu bem diferente do caderno de anotações que agora parece uma flor.

04:00
Campo Belo.

Pouco menos de duas horas andando e eu chegava em casa. Contente como uma criança.

***

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 AV. PAULISTA
 ROUPAS

4 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP







SP07032012 - 19H47

Mais que tudo... Andar e andar.
No meio, ou antes, um desfile de moda, um desfilar de egos.

O ônibus lotado andava devagar seguindo a Vinte e Três. Tentava lembrar de que lado estaria meu ponto de referência, mas como tem acontecido frequentemente eu salto no lugar certo e o metrô me leva para onde eu queria estar. Ligo mas não é preciso. Tudo rola naturalmente e dezenas de bicicletas estão paradas entre os dois sentidos da Avenida. Como uma esfirra, fazendo hora, ouvindo as explosões da bomba de Hiroshima. Tudo isso pouco antes dos maiores sucessos de karaokê.

O desnecessário desfile.

Parecendo uma balada e acho realmente que era. Cerveja paga, todos cheirosos e brilhantes (cintilantes). As pessoas se cumprimentam e olham uma sala com um "estande de vodka", toda azul e cheia de movimento. Me falam que é uma coisa roubada de outra que também me parece uma porcaria pela definição. Todo resto é uma série de distrações ou me distraio e nada vejo. O lugar é enorme como qualquer grande boate cheia de ambientes.
Cumprimentos, cumprimentos, telefones trocados, troco tudo, o espaço dele abriu e fechou, mas como eu saberia?
Falamos sobre qualquer coisa e o clássico e óbvio resultado é um banco de praça na periferia da euforia com três pessoas falando mal de tudo e certo mal humor.

Voltando para o bar o garçom me pergunta se quero mais uma Brahma e queremos mesmo sabendo que não deveríamos. Tarde de mais e coxinha requentada às microondas. Um babaca derruba duas vezes uma cadeira de ferro e altas horas o celular era como um peixe agonizando no chão frio e molhado enquanto um grupo de bichas e minas feias, estudantes de arte aos berros cantando os clássicos do lixo.

Andar, andar e andar (dessa vez por questões práticas)

Frio, sono e nenhum transporte. Ideias idiotas e propostas pouco razoáveis que não levavam em consideração todas as questões de ordem maior. Frio, e nenhum transporte. Andar três ou quatro passos para um lado, voltar, encostar na grade, frio, frio pra caralho e meus braços sem muita gordura pareciam picolés.

- Vamos andar, vai ser melhor... Andando não sentiremos frio.

Com as pernas ocupadas a vida voltou a fazer algum sentido mesmo que não fizesse muito caminhar àquela hora. Descendo a Avenida Rebolças infinitamente... As árvores do canteiro faziam uma espécie de arco cobrindo parte do céu, a ladeira era uma decida suave que sugeria uma improvável volta. E nada daquilo deveria ser familiar, nada a não ser discutir sobre a beleza do canteiro central da Avenida.

- Não, não existe a possibilidade de isso ser bonito.
- Mas é bonito pra caralho.
- Não acredito que está falando isso.

Enquanto a Rebolças me levava gradativamente para mais e mais longe do lugar onde eu deveria ir. Não havia transportes e por mim era coerente ir pra qualquer lugar apenas para mover as pernas e olhar a rua vazia. Quando fosse possível eu iria pra casa.

As árvores e o canteiro não tinham nada de especial, como tudo que nos rodeia. Quem inventa qualquer tipo de beleza somos nós.

Quando eu era muito pequeno via em minha memória (minha memória fantástica de criançá) a imagem de um corredor de árvores que faziam um arco sobre minha cabeça e era como caminhar dentro de um túnel. As árvores eram muito grandes e eu muito pequeno. Suas copas massivas cobriam o céu quase que completamente e não sei se era dia ou noite. Outra memória que se confunde com essa é a de uma árvore dentro de um salão. Algo como um salão de festas com uma árvore de tronco muito grosso no meio. Não sei se ela era de verdade, mas de qualquer forma parecia com um desses brinquedos de playground. Não tenho a menor idéia se essas memórias são inventadas.

As árvores e o canteiro eram incrivelmente atraentes pra mim. E escutar que elas nada tinham de bonitas só ajudava meus olhos a enxergarem que eram muito mais bonitas.

O caminho não acaba, mas o frio tinha desaparecido sendo repelido pelas besteiras que se fala quando o caminho é longo. De repente um lugar relativamente familiar, uma avenida que poderia me levar pra casa, mas nenhum ônibus.

Parados na parada o frio reapareceu junto com o sono e o cansaço. A espera não foi exatamente longa tendo em vista todo o tempo que já tinha passado. Pego um ônibus que só me leva para mais longe em um plano nada lógico de ir até o ponto final de uma das linhas de metrô e de lá voltar no primeiro trem do dia.

No meu caminho pra casa o melhor café com leite (já adoçado ao modo insanamente paulistano) e pão na chapa...

Eu tinha ouvido músicas muito bregas que me amarro antes de sair de casa...
And it's something quite peculiar
Something shimmering and white
Leads you here despite your destination
Under the Milky Way tonight

Seis da manhã eu chego cansado e ela está acordada com os olhos vermelhos, lendo. Os gatos estão meio dormindo. Na TV vejo um coincidente capítulo de uma série que começo a me amarrar... Logo nos primeiros minutos:
“...você atravessa a cidade debaixo de chuva; você pegaria um ônibus; você entraria num taxi; você deixa seu carro no estacionamento e atravessa a cidade. Você sabe que atravessou a cidade; você sabe que fez todo o caminho...”

Tudo parece fazer bastante sentido.


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 ASSAS DE ICARO.





  
ARROZ LENTILHA BOLA DE CARNE BATATAS.

3 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP







SP01032012 - 22H36

I'm full of random facts

Cheio e vazio. Outro dia enquanto bebia uma cerveja no centro da cidade senti o peso de não estar no Bairro de Fátima, de não poder voltar pra casa a pé em 10 minutos. Nossas cervejas foram medidas pelo horário do metrô. Quando as coisas funcionam assim eu me lembro de quando fazia curso (curso de qualquer merda) e quando dava a hora íamos pra casa com os assuntos pela metade.

- Ei, me paga um pão na chapa com café?
- Humm, Ok. Pode pegar lá.
Dois minutos depois
- Não tem Pão na chapa e eu peguei dois salgados e esse suco (suco em lata).
- Não cara, o suco não.
- Tá bom, vou trocar pelo café com leite.

E sobre se abrir, saber das coisas, falar demais, fazer porra nenhuma, pagode velho... O centro é maneiro.

Dia desses os caras colocaram um véu no prédio que estão construindo. Realmente achei bem mais bonito assim. Eu queria ter visto a malha se desenrolar do topo até embaixo, mas como coloquei uma almofada enorme na janela perdi esse momento. A almofada está lá por causa do sol, já que aqui não tem cortinas. Espero que esse prédio novo não seja tão ridículo quanto os outros, mas é um desejo bobo, já que não estarei aqui quando ele ficar pronto e é bem óbvio que a construção será horrenda.

Tive sonhos bem estranhos. O primeiro foi bem bonito e tranquilizante... Acordei naturalmente as 7h40 com o sonho claro como água na frente dos meus olhos. Achando desnecessário levantar da cama tão cedo voltei a dormir e fui castigado por um sonho com o carnaval do Rio de Janeiro. Eu estava em uma festa bebendo com maior galera e resolvemos ir para outro lugar. Todos saíram afobados e acabei ficando para traz tendo que descer uma ladeira correndo, para encontrar com o povo. Nessa descida encontrei uma amiga (que não falo a anos) que me deu uma cantada desconcertante. Fiquei com peso na consciência, sentia que não deveria. Aí de repente estamos em uma casa pela manhã com algumas pessoas dormindo nos sofás.
Eu fujo do carnaval e ele me assalta nos sonhos.

Estou perdido em minhas vontades, que não são poucas. Deveria estar terminando um projeto que colocarei no correio amanhã, mas estou aqui na frente do computador fazendo nada, escutando rádio no celular. Sentindo dificuldades para escrever uma carta de motivação...

"Estou pilhado de entrar nessa parada porque vai ser fodaço ficar um puta tempo em São Paulo com um lugar certo pra cair, dando altos rolés e conhecendo a galera... Talvez eu comece a usar várias drogas (pouco provável, acho que já fiquei velho pra isso) ou beber mais (pouco provável, pois meu dinheiro só acaba), sei lá o futuro é tão incerto e além do mais aquele espaço de vocês é do caralho, podíamos levar um monte de lixo pr'aquela porra que ainda assim ia sobrar espaço... Fora as gatinhas que tem por aqui..."

Formalidades, como eu adoro...

Comi uma pizza congelada agora a pouco, coisa que não fazia a tempos e lembrei claramente porque tinha desistido disso - É horrível e caro. Pra piorar minha indignação com a pizza eu tive que ir na rua pra comprá-la e ao sair do prédio tinha uma galera revirando o lixo - Até ai tudo bem. Fui andando e pensando:
É melhor pegar meu cigarrinho depois de passar dessa dorme que está desse lado da calçada, pois se eu pegar antes ela vai pedir...
Passei da dorme e depois de alguns passos pego discretamente meu cigarro, tudo devagarzinho...
- EI CARA!!! (gritando bizarramente)
Continuei andando a pesar de saber que era comigo.
- EI, CARA!!! ESPERA UM POUCO (ainda gritando muito)
Paro lentamente e olho pra ela.
- ME DÁ UM CIGARRO AI. (GRITANDO)
Fico puto, olho pra ela,,, fico olhando um tempo pra cara dela.
- Desculpa, desculpa, mas me arruma um cigarro, por favor.
Eu dei o cigarro, fazer o que? Meu irmão também fala gritando comigo.

Ontem no começo da tarde eu falei que não sabia direito do meu futuro, que provavelmente iria para o Rio em breve, organizar umas coisas (a vida), bla bla bla
Algumas horas depois fui ao shopping e como estava um calor do caralho, enrolamos, aproveitando aquele momento, cheirinho de coisas novas que só no shopping, ar condicionado, chão limpinho...
Quando estávamos saindo, descendo a rampa, vemos duas amigas subindo... Ah o shopping, lugar de encontros... Depois fomos até a Casa das Caldeiras (onde não nos deixaram entrar) e depois bebemos algumas cervejas aguardando a hora de fazer inscrição em um curso no SESC. Esse encontro me fez pensar em ficar um pouco mais. Só me fez pensar - ainda não cheguei a nenhuma conclusão (Acho que geral já está se acostumando com isso - a demora para as conclusões).

É por ai,,, Tem muita coisa não.

"Pontogor não existe propriamente falando"
Quem disse isso foi um doidera que disse que Álvaro de Campos falou a respeito de pessoa. Sobre a economia do esforço de viver.

lml



BLOCO FODA.



2 - A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP



22 fev (6 dias atrás)


SP22022010 - 00H54

“Um método desorganizado é diferente de uma real desorganização”

Não vi carnaval em São Paulo (salvo dois minutos de ódio assistidos pela televisão de uma banca de jornal, na Av. Paulista). Tudo parece normal pegando um ônibus e um metrô para ir onde quero. Ontem demorei duas horas de madrugada para voltar pra cá (pior do que quando morava na Penha, mas ok).

Luzes subiam pelas paredes, deslizavam pelo teto... Vermelho, verde... Uma pista lotada e o caos, sempre o caos. Que dizer? Ando pelo espaço em vão e tudo parece um labirinto, esconde-esconde, pique-pega? As pessoas dançam enquanto todo o espaço pulsa embalado por uma total aleatoriedade musical. Subo as escadas para fumar um cigarro. Gente histérica. Três meninas são abordadas por um grupo de rapazes que me pareciam uma banda de irmãos sertanejos. É constrangedor e hilário, mais ainda quando um deles fala:
- Toda mulher já nasce bissexual. Algumas aproveitam, outras não.
Tiro pela culatra e as gatinhas não caem no papo.
A noite era agradável e não iria beber nada, por nada. Uma cerveja pelo preço de um uísque e eu já tinha tomado alguns copos de vinho. Volto pra pista... Esperar até quatro e meia da manhã para pegar o metrô, andar pela rua vazia, comer um joelho chamado bauru.

É quando parece que estava fazendo as coisas de uma forma aleatória demais...
Essa cidade sugere outra organização. Mas se o método é a base das ideias, tudo pode mudar, tudo pode mudar e talvez deva.

Uma série de fotografias das coisas como elas estão postas e a sensação de nada estar fazendo. Sinto saudade de um espaço para que as coisas aconteçam, um palco para os objetos se resolverem. Leva algum tempo até que alguma coisa aconteça... Sinto-me olhando para a paisagem a espera de um terremoto. Livro, livros, livros, CDs, DVDs, roupas, móveis... Os gatos andam pra lá e para cá. O que vai acontecer? O que poderia acontecer aqui? Nem sei o que estou esperando.

Nas páginas do livro um mundo que não existe mais. Vadios, punguistas, malandros...
"Baixo-mundo, ou submundo do crime, não é necessariamente designação de determinado local de uma qualquer cidade. Designam, isso sim, o conjunto de seres humanos que nela vivem, à margem da lei ou dos bons costumes, bem como a ambiência dentro da qual os seus destinos se arrastam."
O que estou procurando?

A parede vermelha... Pela janela vejo uma maquete de proporção um pra um, exatamente de frente, um projeto de 3D. O recorte e as cores não podem existir na realidade... Dá a sensação que fazem pelo menos um novo por dia, pela quantidade de obras. Minha câmera registra um pedreiro que puxa um bloco pesado, preso por uma corda. Ele está no topo do prédio, todo paramentado, capacete, cinto, botas de pedreiro. É segunda-feira de carnaval e ele puxa mais dois blocos de diferentes tamanhos até que desligo a câmera. Gravei isso sobre algo que foi gravado sobre outra coisa, que sei lá... Nada foi digitalizado, só tenho uma fita, gravo por gravar.

O metrô não me interessa, mas é bem interessante. Em pé no meio do ônibus, nos sentimos como em um parque de diversões, é besta, mas divertido. Shopping, viaduto, concessionária, lanchonete e saio pela porta do lado esquerdo. Uma quadra antes do meu prédio uma árvore exala um perfume absurdamente forte. Jogo uma pequena pedra na guarita do porteiro, que não ouve o interfone.

Os cegos parecem andar tranquilamente na Av. Paulista, caminhando sobre um branco tapete. Em cada possível desvio os segmentos de reta se transformam em pontos e bem próximo ao meio-fio ele tem a cor amarela. Não sei exatamente em que a cor pode ajudar a um cego, mas tudo bem. Os skatistas deslizam pelo concreto.

O gato não parece gostar da gata e gosta menos ainda de não entrar no quarto, mas por sua vez meu nariz não gosta nem um pouco dos pelos dele, nem do dela. Ela gosta de tudo e dorme com a cabeça pendendo do encosto do sofá - lugar cedido para livre circulação dos gatos. Eu tenho o quarto e eles têm todo resto, já que estavam aqui antes de mim. Como em cuba escrevo com meus pés movimentando um pedal que chia e gira inutilmente uma roda sem correia, sem máquina, sem agulha e sem linha.
Um CD atrás do outro. "Quanto mais noise, menos atrapalha".
Ele não gosta de nada que ela faz. (miado de reprovação). Ela fica blasé enquanto ele parece detestar tudo.

Eu vou embora de São Paulo e não te vejo mais.
Eu não vejo o Rio de Janeiro, eu não vejo a praia.
Eu não quero ver o por do sol na praia.

Vou até o centro para comprar filmes fotográficos. Antes disso, caminho pela rua e entro em um prédio, subo as escadas. Em uma das salas encontro três carteiras de madeira, em cada uma, uma máquina de escrever. Sento na da direita e folheio os papeis datilografados rudimentarmente. Leio:
"QUERO VER O POR DO SOL DA PRAIA".
Escrevo uma carta para ela, sei lá por quê? Um total absurdo. Finjo-me poeta e escrevo uma carta. Coloco minha folha de papel misturada às outras, substituindo-a por uma nova onde escrevo em caixa alta:

ESCREVA







http://pontogor.blogspot.com/
lml

A BOCA DO LIXO - DIÁRIOS SP - Resid6encia surpresa







Ps.: O sapato era bonito, mas não tinam o meu número





build


It's build a house where we can stay
Add a new bit everyday


It's build a road for us to cross
Build us lots and lots and lots and lots and lots

Fwd: Sobre as casa



Luciana Paiva
09:14 (53 minutos atrás)

para mim
---------- Mensagem encaminhada ----------
Data: 5 de novembro de 2011 13:05
Assunto: Sobre as casas



Então um pedreiro veio para frente e disse: "Fala-nos das casas".
E ele respondeu dizendo:
Construí em vossas imaginações uma choupana no mato antes de construirdes uma casa dentro das muralhas da cidade.
Pois assim como tendes regressos ao crepúsculo, também os tem o viajante dentro de vós, sempre distante e solitário.
A vossa casa é vosso corpo maior.
Cresce ao sol e dorme na quietude da noite; e não é desprovida de sonhos. A vossa casa não sonha? E sonhando, deixa a cidade pelo bosque ou colina?
Pudesse eu juntar as vossas casas na minha mão, e como um plantador espalhá-las pelas florestas e pelos prados.
Puderam os vales serem vossas ruas, e os caminhos verdejantes vossas vielas, que procurásseis uns aos outros pelos vinhedos, e chegásseis com a fragrância da terra em vossas roupas.
Mas essas coisas ainda estão por acontecer.
Em seu medo vossos antepassados vos ajuntaram muito próximos uns dos outros. E esse medo há de perdurar por mais algum tempo. Por mais algum tempo as muralhas de vossa cidade hão de separar vossos lares de vossos campos.
E dizei-me, povo de Orfalés, que tendes vós nessas casas? E o que guardais com portas trancadas?
Tendes paz, o anseio calmo que revela vosso poder?
Tendes recordações, os arcos cintilantes que se estendem por sobre os cumes da mente?
Tendes beleza, que leva o coração das coisas talhadas em madeira e pedra para a montanha sagrada?
Dizei-me, tendes isto em vossas casas?
Ou tendes apenas conforto, e desejo de conforto, essa coisa furtiva que entra em vossa casa como convidado, se torna anfitrião, e depois mestre?
Ah, e se tranforma em domador, e com laço e açoite faz marionetes dos vossos desejos maiores.
Embora suas mãos sejam sedosas, o seu coração é de ferro.
Embala-vos no sono apenas para ficar junto de vossa cama e zombar da dignidade da carne. Faz escárnio de vossos sentidos sãos, e os deposita nas plumas do cardo como frágeis embracações.
Em verdade o desejo de comforto assassina a paixão da alma, e depois caminha sorrindo no funeral.
Mas vós, filhos do espaço, vós inquietos em repouso, não heis de ser fisgados nem domados.
Vossa casa há de ser não uma âncora mas um mastro.
Não há de ser uma película reluzente que cobre uma ferida, mas uma pálpebra que guarda o olho.
Vós não heis de dobrar vossas asas para passardes pelas portas, nem curvar vossas cabeças para que não batam no teto, nem temer respirar possam as paredes racharem e desmoronarem.
Vós não heis de habitar túmulos feitos pelos mortos para os vivos.
E embora de magnificência e esplendor, a vossa casa não há de deter vosso segredo nem abrigar vosso anseio.
Pois aquilo que é ilimitado em vós reside na mansão do céu, cuja porta é a névoa da manhã, e cujas janelas são as canções e silêncios da noite.



(Khalil Gibran, O Profeta)

Curto Circuito (1979)







Um homem foge sem que saibamos a razão. Na versão instalativa, realizada em 2007, e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, as imagens dele fugindo são dispostas em campo/contra-campo (na verdade o filme não possui contra-campo), gerando a nítida impressão que ele foge de si mesmo. Em uma tela ele foge de carro e quando sai do carro começa a correr e vice versa. Cada filme contém as duas partes, a fuga em carro e a fuga à pé. A estrutura da instalação é topológica, como na banda de Moebius.





http://vimeo.com/julianamundim

AR

 







 

 

Sofia De Grenade

El sur








 

Sofia De Grenade




La Salle Blanche, Marcel Broodthaers,1969

fahrenheit



" Nos maisons se transforment progressivement en studios de télévision, pleins d'équipements électroniques-caméscopes, magnétoscopes, chaines stéréo de pointe-conçus pour faire de nous la vedette, le scénariste, le réalisateur de notre propre mini-drame permanent. La réalité se transforme en un film amateur dans lequel une version infantile de nous-mêmes traverse en courant un jardin à la pelouse artificielle" J.G.Ballard.


I must make more maps




This is a dark house, very big.
I made it myself,
Cell by cell from a quiet corner,
Chewing at the grey paper,
Oozing the glue drops,
Whistling, wiggling my ears,
Thinking of something else.








<Clica pra ver maior. É um filme sobre um tema tão batido quanto necessário. Mais um filme sobre isso. Nesse caso, aqui, não é sobre esse tema que quero linkar, é mais para abrir o conceito de casa>
Vou tentar a desistência. 
Vou sentar aqui, 
ficar sem ir e esperar 
por mim que vem atrás.


Capinam 

"A Casa é o Corpo: Labirinto"


penetração, ovulação, germinação e expulsão.




  

 

 

Lygia Clark

1968. MAM - RJ 

homesick



every day there's a boy in the mirror

asking me
what are you doing here
finding all my previous motives
growing increasingly unclear





but there's only one thing on my mind
searching boxes underneath the counter
on a chance that on a tape I'd find

a song for
someone who needs somewhere
to long for

Em seu último dia no Rio de Janeiro, Juruna passa o dia na casa de Flora.

http://vimeo.com/28282202
Casa: 1. Edifício destinado, em geral, a habitação. 2. Lar, família. [...]

Lar: 1. A parte da cozinha onde se acende o fogo. 2. Lareira. 3. A casa de habitação. 4. A família. 5. A pátria.

Habitação: 1. Ato ou efeito de habitar. 2. Lugar ou casa onde se habita; morada.

Habitar: 1. Ocupar como residência; residir. 2. Tornar habitado. Habitável.

Hábito: 1. Disposição adquirida pela repetição frequente dum ato, uso, costume.

Residência: Domicílio.

Domicílio: Casa ou lugar onde se reside; residência.

Abrigo: 1. Lugar que abriga. 2. Agasalho que protege do mau tempo. 3. Cobertura, teto.

Cabana: 1. Habitação precária e rústica; choupana. 2. Casebre.

O Habitante de Pasárgada - Manuel Bandeira

Arquitetura “O QUE SIGNIFICA HABITAR?”


1. A palavra casa

Entendo a pergunta “o que é arquitetura” como a mesma, “o que significa habitar[1]”.

A pergunta “o que significa habitar?” é o nome do ensaio. Talvez possamos entender o nome por a casa da coisa que ele nomeia. Nome como parte de uma construção humana que abriga as coisas. Entretanto, creio que não há o que seja conhecido ou desconhecido pelo homem que esteja fora dele[2] . Podemos dizer então que (o nome) essa construção que abriga as coisas, na verdade, abriga o homem ao fazê-lo.

Acredito que a casa que o homem constrói para as coisas provém de sua necessidade de dar sentido à elas. Assim, a casa que o homem constrói para as coisas é a casa que constrói para si. Os objetos, as paredes só são casa na medida em que se dá este significado para eles.

Nos acostumamos a chamar de casa o lugar onde dormimos, ou o edifício que nos envolve em teto e paredes, este não pode ser o único entendimento.Como arquiteto, preciso pensar na amplidão de seu significado para construir uma boa casa.

Quando um caminhoneiro está na estrada ele está em casa, de maneira semelhante a quando ele está na construção de tijolos e telhas que chama “casa”. Esta, fica talvez numa cidade só e tem paredes, mulher, filhos, cozinha, porta. Não é a mulher e os filhos ou as paredes e o telhado que fazem deste lugar uma casa. Tudo isso pode mudar e o caminhoneiro pode chamar de casa um edifício totalmente distinto, mesmo sem a presença de sua família. Como já chama de casa a estrada. Como Vilanova Artigas já dizia: “A casa não termina na soleira da porta.”

Existem, com certeza, múltiplas casas na vida de uma só pessoa. É indubitável, também, que mudamos de casa de quando em quando. Por vezes saímos de uma casa e partimos para outra, dizemos: estou me mudando. Por vezes as casas são abandonadas, destruídas, reformadas , etc.

Quando você muda de casa, deve estar construindo uma casa. Esta espelha aquela que já se habita em si mesmo. A procura/construção de uma nova casa se faz necessária porque não podemos antes disso saber como vamos morar. Por isso vai se construindo na medida em que se procura, estabelecendo uma nova casa. Mesmo que não coloque tijolos, está construindo uma casa com as suas escolhas. Usa toda sua capacidade como homem. Usa todo o seu ser para isso.

Uma nova casa sempre tem as antigas contidas nela. Vivendo, habitando, sempre estamos construindo a nossa casa. Reproduzimos o abrigo que é o corpo para o nosso ser num abrigo para o nosso corpo. O primeiro abrigo é o ventre materno. Sempre há uma reminiscência destes abrigos primordiais e dos abrigos antigos na construção de nossas casas. Pode-se dizer que construímos de certa maneira uma casa continua. O homem constrói uma casa continua durante sua permanência sobre a terra. A casa de nossos ancestrais, sua vida, seu habitar, sua permanência sob o céu e sobre a terra, está contida na nossa casa.

Será que podemos pensar a casa física como invólucro, que o homem dá início à sua vida de casa ao morar? Creio que não. Se as construções são a maneira como o homem habita, então mesmo a casa sem morador é habitada. Assim como um vaso exposto num museu, seu uso comum desapareceu, mas ele ainda é um vaso.  Ou podemos pensar nas casas famosas como A casa da cascata de Frank Loyd Wright, hoje ninguém mais mora lá. Ela ainda é uma casa. Mesmo uma casa abandonada ou um vaso quebrado. Talvez elas só estejam vivas porque são o abrigo de uma coisa a qual o homem deu determinado significado de vaso e de casa.

Um edifício vazio não está morto, isso porque a finalidade da construção é o habitar do homem. Mesmo o pior dos edifícios da arquitetura é habitado porque é uma construção. Habitar não significa que a arquitetura é boa, ou má. Penso habitar como a finalidade da arquitetura.
Um arquiteto pode construir uma casa se ele morar nela, mesmo na sua idéia, no projeto. O marceneiro tem que ser madeira para fazer seu trabalho, ele habita a madeira, a madeira é a casa do marceneiro. Assim, penso que a casa é a casa do arquiteto.

São os habitantes das casas que às constroem. A casa que o arquiteto constrói existe por si, mas a casa habitada por outrem é outra. A casa construída(habitada) pelo arquiteto tem vida e é impregnada de uma aura de “casa”. A maneira como um morador virá a habitar esta construção se relaciona intrinsecamente à maneira como a casa foi construída pelo arquiteto. Entretanto, este morador com certeza construirá uma nova casa enquanto habitar este lugar.

Sobre a casa construída pelo arquiteto: gosto de pensar no controle descontrolado ou descontrole controlado. Porque somente nesse equilíbrio – no embate com a realidade, essa compreensão de uma incompletude desejável – acredito que o arquiteto se envolve com o espaço da vida que aí vai acontecer. É uma questão de deixar o espaço aberto para o inesperado, o incontrolado. Só assim, no que está velado, pode haver uma desejada abertura para o sagrado. A minha intenção como arquiteto para além de desenhar um abrigo físico, é antes, habitar o mundo.


2. Arquitetura limiar

Ciganos carregam sua casa, que é como uma mala que tem todas as suas coisas, e se movem por vários lugares. O inventário de objetos que constitui a moradia dos ciganos está totalmente impregnado do sentido de casa. A casa pode estar nos objetos mas não é eles. Ela pode prescindir totalmente de objetos, ou, como no exemplo dos ciganos, eles podem trocar os objetos que possuem por outros e continuar tendo sua casa. Os objetos são muito importantes para eles todavia, porque estão impregnados do que é a sua casa.

Nômades põem uma força muito maior nos objetos por não terem lugar fixo. Nós transferimos essa importância para as paredes. As coisa estáticas.

Mesmo em casos limiares da arquitetura. Lembro da mulher que mora na rua General Jardim, sua casa é um ponto que ela elegeu, embaixo de uma pequena marquise. Ela usa a cidade que está construída ali, aquela parte, aquela rua. Ela se fixou ali. Impregna aquele lugar com um sentido de casa.

Uma pessoa que não se fixa não vai impregnar tanto as coisas paradas. Vai preferir impregnar as coisas que ela pode levar com esse sentido de casa.

Deixamos os lugares impregnados de nós mesmos. A casa do homem é o que está impregnado de homem.

3. O nome e a casa

A pergunta “o que significa habitar?” é o nome do ensaio.Talvez possamos entender o nome por a casa da coisa que ele nomeia. Nome como parte de uma construção humana que abriga as coisas. Entretanto, creio que não há o que seja conhecido ou desconhecido pelo homem que esteja fora dele. Podemos dizer então que (o nome) essa construção que abriga as coisas, na verdade, abriga o homem ao fazê-lo.

O nome é a casa da coisa. Quando se nomeia uma coisa, se está impregnando ela, construíndo um sentido. Um nome exige uma construção. Um nome é uma construção. O que quer que seja, muda totalmente quando você o nomeia.

Por que o homem tem necessidade de nomear as coisas? Acredito que isso tem a ver com o habitar.
Habitar é uma condição do Homem. Está habitando enquanto pairar sobre o mundo. Não uma pessoa, o Homem, que não tem tempo e espaço mais restritos.

O Homem dá nome para as coisas pra se proteger delas. Ou proteger elas, mas protegê-las é uma projeção. Elas estão dentro do Homem. Assim, acredito que nomear as coisas é um dos instrumentos da habitação mais ancestrais. Nomear as coisas é construir uma casa para o Homem.

Outro dia uma colega de classe me contou uma história. Seu filho havia enfileirado no chão todos os seus brinquedos desenhando um limite. Desenhou também com essa linha de brinquedos uma porta e disse à mãe: “Entra na minha casa.”

4. Epistemologia da Arquitetura – Pensar sobre o que é arquitetura é pensar sobre a relação da coisa construída com seu espírito.

Homem, habitar, sob o céu e sobre a terra, construir, casa, limite, proteção, sentido.



 


[1]  Penso habitar, baseada na minha leitura do texto “Construir, habitar, pensar” do filósofo alemão Martin Heidegger, como a finalidade da arquitetura. Nessa conferência, Heidegger diz: “Parece que só se pode habitar o que se constrói. Este, o construir, tem aquele, o habitar, como meta. Mas nem todas as construções são habitações. Uma ponte, um hangar, um estádio, uma usina elétrica são construções e não habitações; A estação ferroviária a auto-estrada, a represa, o mercado são construções e não habitações. Essas várias construções estão, porém, no âmbito de nosso habitar, um âmbito que ultrapassa essas construções sem limitar-se a uma habitação. (…) Habitar seria, em todo caso, o fim que se impõe a todo construir. (…)Construir é propriamente habitar. ”

[2]Peter Zumthor diz na conferência “Atmosferas” : “ me vem a cabeça esta famosa frase inglesa que remete a Platão: ‘The beuty is in the eye of the beholder’, é dizer: as coisas estão dentro de mim.”


ANA NEUTE E RAFAEL CHVAICER 






http://atelierdocentrores.wordpress.com/arquitetura/






A Casa de férias (O Senhor Valéry e a lógica, Gonçalo M Tavares)

curioso


Photos From Around the World of Families and Their Possessions


http://flavorwire.com/205437/photos-from-around-the-world-of-families-and-their-possessions/2

heaven and earth




I enjoy the simple pleasures of wellbeing,
independence, opportunism,
eating, dreaming, happenstance,
of passing through the land
and sometimes leaving (memorable) traces along the way,
of finding a new campsite each night.
And then moving on.





Morro Azul


O terreno era curvo e repleto de inclinações. O primeiro que me vem à cabeça é o pé de graviola. Graviola não, acerola. As frutas enormes juntavam passarinhos ao redor do pé. Me lembro também do milharal perto da quinta, da vertigem de montar pela primeira vez, e depois o mato e as framboesas pelo caminho.

Uma vez um raio caiu dentro da casa. E digo “da casa” e não “de casa” porque a casa não era minha. Vi do corredor. Caiu no banheiro e ela dentro. Ela no banho e de repente um clarão. Parece mentira, mas o banheiro tinha justo o espaço do raio e da criança – um do lado do outro entre os ladrilhos brancos. E foi tão rápido e barulhento que ela saiu surda e cega – nós ali olhando sem dizer nada, a casa vazia. Ela veio do banheiro sonâmbula, foi pra cama, se cobriu dos pés à cabeça e ficou lá no casulo. No dia seguinte já não se lembrava. No dia seguinte foi ela que nos tirou dali.

Era uma menina de sardas e cabelos encaracolados. Família da Tijuca, ele do Leme, eu da Gávea. Me lembro uma vez apostamos quem ia conseguir dar um beijo nela primeiro. De repente era de noite, eu num dos quartos lia a história do Saci pra outra criança quando a porta : posso entrar? O arrepio foi ver ela vir ouvir a história do meu lado. Ela já tinha peitos e eu estava quase encostando. Mas logo no final, quando a criança já dormia, ele entrou dizendo que tínhamos que ir, que ele tinha visto um fogo voando no meio do jardim. Eu sabia que não veríamos nada além de vagalumes, mas me levantei mesmo assim, talvez até aliviado enquanto ele sorria esperando com a mão na maçaneta.


***


E na volta o resto do dia nos fundos, diante da porta brincando com as antenas, ainda que o medo das Vermelhas. 1956. Era quinta-feira de lava-pés quando o príncipe disparou no seu irmão caçula. Detrás da casa a pistola era presente do Franco – o tiro entre as sobrancelhas não se sabe se acidente. O morro apinhado de formigueiros de onde a trilha até o chão da área. As Marias Pretinhas (ou Vagabundas) tinham desenhado uma linha invisível com várias camadas de feromônio – versão obreira sem asa do Caminho de Santiago. E com pinças e fósforos raptávamos duas, deitávamos antenas fora, e emborcávamos um pote de vidro sobre elas. Encerradas no Coliseu não se reconheciam. Sem as antenas não podiam se cheirar, e se tocavam sem se tocar, se estranhavam, e começavam a luta. Cortavam as patas uma da outra, uma por uma, às vezes se suspendiam no ar, e ganhava a que tivesse mais membros no final – a não ser que surgisse uma tão forte que logo zás! cortava a cabeça da outra. Depois escurecia e os restos eram classificados. De um lado as cabeças, do outro corpos, patas e finalmente antenas, tudo amontoado em cemitérios de formigas e ao lado o pote vazio que refletia agora uma luz artificial.


***


Cavo ainda mais fundo e surge algo embaçado. Uma casa de pau-a-pique no meio da estrada mais acima, um morro, uma velha senhora falando kimbundu, uma dinda esclerosada que já ninguém prestava atenção ninguém tinha –, aquela imagem queimando no cachimbo. Ela sentada olhando de cima pro nada – nada?, falando lé com cré – nada de nada?, como é que será que morreu – será que morreu?

gavetas