Revista Virtual Astro-Lábio de Arte & Literaturas 2ª edição_
Casa e suas adjacências – jardim, muro, mobiliário, caracol, tapete, cozinha, etc.

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DIÁRIO POLIFÔNICO
CASA EM OBRAS

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data25 de julho de 2011 13:40
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não tenho seu endereço
perdi agendas, cadernos, guardanapos, bilhetes, souvenirs
no translado riosampaulo
e desejei demais um endereço residencial -
um nome de rua, um número
que corresponda a uma porta
fenda maleável inscrita num muro -
travessia possível para um interior
que nos envolve desde o exterior -
a casa é um tipo de pele; endereçar-se
a casa, visitá-la, conhecê-la
tê-la ao alcance das mãos
trazer dela um
fragmento - o livro; a caderneta de recados;
a xícara lascada; o chaveiro -
ou antes
o contrário
introduzir na casa
um fragmento do fora,
tornar dela
uma pedra; um cristal; um jornal; uma carta em branco -
pretender esquecer
na casa
o casaco; a bolsa de pertences íntimos;
os grampos de cabelo -
é uma incisão, cirurgia
travessia possível
no espaço temporal epidérmico
que amplia como prótese
os corpos...

apaguei tantas vezes o início desse e-mail
porque só me é possível falar
se falo outra coisa
sempre outra
que já não é
que fantasiei uma máquina de escrever (e envelopes
e selos e todo o tempo do mundo nascido entre uma mensagem e outra)
onde cada reinício inaugurasse não só uma nova fala
um outro caminho por onde trafegar mas toda uma paisagem;
um campo; uma folha de papel virgem -
de modo que a fatura
deste tráfico de afetos fosse marcada
não só pelo prazer do branco que tudo reflete
(e que é inteiramente diverso da luz do monitor que tudo ofusca)
pelo apagamento (delelete-delete-delete) pelo desfazimento do escrito
mas pela possibilidade sempre renovada
de maltratar a celulose,
amassá-la
descartá-la
rasgá-la
lançá-la
amarrotada, queimada,
ao lixo -
não arrancando assim
- e nem mais uma vez -
às folhas gastas com pensamentos falhos
arranhadas por trajetos
inconclusos
um Destino, uma Morte, um Fim, uma Casa.

The Conspiracy/ A Conspiração


You send me your poems,
I'll send you mine.

Things tend to awaken
even through randon communication

Let us suddendly
proclaim spring. And jeer

at the others,
all the others.

I will send a picture too
if you will send me one of you.


(Robert Creeley, 1926-2005)







Envie-me seus poemas,
enviarei os meus.

As coisas tendem a despertar
até entre uma mensagem, a esmo

Deixe-nos subitamente
proclamar a primavera. E rir

dos outros.
Todos os outros.

Também mandarei um retrato meu
Se você me enviar o seu.



(Tradução de Virna Teixeira)







tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:















Preparativos



Como el que
habita
esa última casa
en la frontera.

Como el que
habita esa casa
última.

Como el que
ultima los preparativos
para abandonarla.












Leónidas Lamborghini,
Buenos Aires 1927-2009

de Circus, Libros de Tierra Firme, 1986

Dear, Dear Brenda:

the gateway to the subject

Richard Hamilton_Interior II (1964)

conteners_4.jpg

annie leibovitz




















.

ao espaço doméstico







Glenn Gould plays Bach

Ilê de Fernando de Noronha [Possession Brésilienne]




tudo apertado, não temos muito espaço como você pode ver. Você gosta de morar aqui? Não. Sinto saudade dos meus filhos. Onde eles estão? No continente. E você gosta de morar aqui? Não. Por quê? Muitos ratos passam por aqui à noite. Os galhos dessa velha gameleira sempre quebram sobre meu telhado. Uma vez, quase caiu sobre mim. Tenho medo. Eu moro aqui porque não tenho outro lugar. Sentada observava. O sol poente ao meu lado direito, a estrada de asfalto, a pista de pouso, o porto, poucas luzes na extensão verde e montanhosa. Assim eu também era ilha. Como uma visão à distância, Noronha me fez pensar nas cidades em que vivemos. Em como vivemos. Como se a ilha inteira coubesse dentro de mim e eu fosse também terra e água. E mais nada.